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Paris / parte 2

A torre
 “Construção inútil e insubstituível, mundo familiar e símbolo heróico, testemunha dos acontecimentos de todo um século e monumento sempre novo, objeto inimitável e sempre reproduzido…”  Roland Barthes (A Torre Eiffel, editora Delpirre, 1964).

Quando Gustave Eiffel  viu ser inaugurada sua torre na Exposição Universal de 1889 não podia imaginar, ante toda polêmica gerada pela obra, que aqueles mais de 300m de altura de ferro se tornariam um ícone mundial.
Naquela época, artistas como Garnier (o da Ópera!) e Charles Gounoud publicaram um manifesto em repúdio àquela obra “inútil e monstruosa” que, segundo eles,  poluía a paisagem da cidade.  O tempo se encarregou de dar volta a essa página e transformar a torre num dos principais pontos turísticos do planeta.
Paris (e seus arredores) foi um dos principais focos inovadores de todos os tempos, em grande parte no campo das Artes e da Arquitetura.

LE CORBUSIER
”Les matériaux de l'urbanisme sont le ciel, l'espace, les arbres, l'acier et le ciment. Dans cet ordre et en ce que la hiérarchie.” Le Corbusier

Poissy é uma cidadezinha que fica a uns 30km de Paris e lá se encontra a Ville Savoye, obra paradgmática da Arquitetura Moderna que eu, como Arquiteta, tinha o sonho e o compromisso de ir visitar. Peguei um trem na Gare du Nord e chegando lá foi fácil encontrar o lugar, caminhando um pouco da estação central até o ponto de ônibus que me levaria ao bairro da casa-manifesto.
Terraço-jardim, construção sobre pilotis, planta livre da estrutura, fachada livre da estrutura, janela contínua. Fui ver de perto a casa que tanto estudei na Universidade, experimentar ao vivo e a cores as proporções e novas propostas habitacionais que ela representou. Entrar no livro que você leu durante tanto tempo representa um momento de felicidade particular que apenas quem sente pode compreender.


Saindo da Ville acabei pegando o mesmo ônibus que havia me levado e no meu reduzido francês, entendi que o sorridente motorista me disse para subir e não precisava pagar – até hoje não sei bem se eu já havia pago ida e volta ou se ele me deu uma carona rsrs.
Almocei na cidade e empreendi caminho de retorno à Paris.

Já de volta, uma passadinha pelo edifício da rue Franklin, de Auguste Perret, um dos 1os que utilizou o concreto armado como meio de expressão na volumetria. 
E no Trocadéro há um Centro de Arquitetura com diversas reproduções de peças da Arquitetura mundial, inclusive um modelo escala 1:1 (tamanho real) da Unité d’Habitation de Marseille.  Se um senhor alto, de pele negra e com uniforme de vigilante puxar papo com você se oferecendo para mostrar a obra, aceite na hora. Você vai ter in loco uma aula sobre cada detalhe arquitetônico, cada escolha de Le Corbusier para que a casa fosse a perfeita “máquina de habitar”. Fiquei um longo tempo com ele, que falava pausadamente para que eu compreendesse bem e com uma paixão comovente por aquele lugar.  Impagável.


Meu último dia na cidade reservei para apenas caminhar, o flâneur lembram? Houve alguns museus que não visitei, mas sei que voltarei à Cidade-Luz, afinal Paris, sempre Paris!

>en español
La torre
  "Edificio inútil e irremplazable, mundo familiar y símbolo heroico, testigo de los acontecimientos de un siglo y monumento siempre nuevo, objeto inimitable y siempre reproducito ..." Roland Barthes (El editor Torre Eiffel, Delpirre, 1964).

Cuando Gustave Eiffel vió inaugurar su torre en la Exposición Universal del 1889, no podía imaginar, delante de toda la polémica generada por la obra, que los 300 metros de hierro se convertiría en un icono mundial.
En ese momento, artistas como Garnier (de la Opera!) y Charles Gounoud publicaron un manifiesto repudiando la torre  "inútil y monstruosa" que, según ellos estaba contaminando el paisaje de la ciudad. El tiempo se ocupó de transformar la torre en una de los principales atracciones turisticas del planeta. París (y sus alrededores)  fue uno de los principales focos innovadores de todos los tiempos, en gran parte en el campo de las Artes y Arquitectura.

Le Corbusier
”Les matériaux de l'urbanisme sont le ciel, l'espace, les arbres, l'acier et le ciment. Dans cet ordre et en ce que la hiérarchie.” Le Corbusier

Poissy es una pequeña ciudad que está a unos 30 km de París, allí se ubica la Ville Savoye, obra paradgmática de la arquitectura moderna que como Arquitecta soñava en visitar. Tomé un tren en la estación Gare du Nord y llegando  a la  estación central de Poissy hay que caminar hasta la parada de autobús que me llevaría al barrio de la casa manifiesto con su patio libre, , pilotes, estructura libre, fachada libre de la estructura, ventana continua. Era como estar adentro de mis libros de la Universidad y este es un placer particularque solo uno puede compreender.
Al salir de la Ville por casualidad tomé  el mismo bus que me habia traído y en mi limitado francés me di cuenta que el conductor sonriendo me dijo para subir sin pagar – hasta el día de hoy no sé si yo ya pagado de ida y vuelta o si él me regaló un viaje.
Almorzé en la ciudad y emprendí camino de regreso a París. Allí pasé por el edificio de la calle Franklin, de Auguste Perret, uno de los primero que utiliza el hormigón armado como un medio de expresión en la volumetría. Y hay un Centro de Arquitectura enel Trocadéro con varias reproducciones de piezas de arquitectura del mundo, entre ellos un modelo en escala 1: 1 (tamaño real) de la Unidad de Habitación de Marsella. Si un hombre alto, de piel negra azabache y de uniforme ofrecerse para mostrar la obra, aceptá en el momento. Tendrás una clase sobre cada detalle arquitectónico, cada elección de Le Corbusier para que la casa fuese la  perfecta "máquina de habitar". Estuve mucho tiempo con él, que hablaba lentamente para que yo lo compreendiera bien y transmitia una pasión conmovedora por el lugar. Maravilloso.

Mi último día en la ciudad reservé para simplemente caminar, el flâneur ¿recuerdan? Hubo algunos museos que no he visitado, pero sé que voy a volver a la ciudad de la luz, pues  París, es siempre París!

Oh la la Paris ma chérie!!

PARIS / parte 1

Meus olhos se entreabriram e pude perceber  um pedaço da fachada de um prédio com mansarda. Estava amanhecendo e uma chuva fina dava àquela paisagem limitada pela janela do taxi, um tom acinzentado.

- Voilá mademoiselle!

Demorei alguns minutos em terminar de me despertar enquanto o chofer tirava minha mala do baú do carro. Um Citroen. Eu havia embarcado no Rio ainda receosa de que o furacão Sandy atrapalhasse a conexão, algumas horas no aeroporto de JFK me permitiram observar os metros de neve que a tempestade de inverno havia deixado por lá...por sorte a viagem a Paris via NY foi tranquila e sem atrasos, porém não dormi direito no avião e quando desembarquei na madrugada da Cidade-Luz me sentia absolutamente exausta.
Alguns devem estar se perguntando o porquê de uma conexão em NY. Foi a melhor opção custo-beneficio que encontrei naquele momento, comprei uma passagem triangulada Rio-Paris-Miami-Rio que me permitiria visitar minha irmã “americana” na volta, e ainda saiu bem mais barato que os voos diretos. Causas etílicas mudaram um pouco o itinerário de regresso, mas...enfim já contarei mais adiante...hic!

Aquela exclamação em francês me acordou de uma soneca reconfortante durante o caminho aeroporto-hostel. Eu poderia haver ido em trem, mas certamente iria passar da estação! De repente uma injeção de adrenalina – aquela que deve atingir a todos os apaixonados por viajar – percorreu meu corpo e em poucos minutos esqueci o cansaço e o frio. Paris, je suis arrivé!!
Escrever sobre Paris é uma tarefa deliciosamente árdua. São tantas as possibilidades de abordar a cidade que a mente e as lembranças bailam entre Arquitetura,  História, Arte, Urbanismo, cafés, música, Belle époque.  Ao caminhar pelas ruas e avenidas fica claro porque ela foi capital cultural indiscutível dos séculos XIX-XX, modelo de urbanismo e local de grandes encontros intelectuais, Man Ray, Picasso, Van Gogh, e tantos outros.

É claro que numa cidade assim, a melhor forma de disfrutar é a pé. De Montmartre, onde ficava o hostel, até chegar ao rio Sena fui seguindo um pouco o mapa mas também deixando-me levar por desvios deleitosos...como uma autêntica flâneur . O termo remete a “vagabundo”, “preguiçoso” e tem também relação com o verbo “flâner” que significa “para passear”. Charles Baudelaire desenvolveu uma definição como “pessoa que anda pela cidade a fim de experimentá-la” e essa era exatamente minha intenção ali.

Um desses caminhos à deriva me levou à Operá de Paris, edifício de Garnier inaugurado em 1875 e inspirador do também belíssimo Teatro Municipal do Rio. Sua construção foi parte da ação de restruturação urbana promovida pelo genial prefeito Haussmann, e dali segui minha caminhada que tinha como objetivo chegar ao rio.
Meu contato com os parisienses fez cair um dos maiores mitos que eu havia escutado sobre eles: que são mau-humorados e se recusam a falar inglês. Ok, posso ter tido sorte...mas o fato é que foram várias as demonstrações de muita simpatia.

Lá estava eu, na minha 2ª parada à deriva, pois foi impossível passar pelo Museu do Louvre e não querer entrar na mesma hora... quando chegou minha vez de comprar o ingresso entendi que o senhor da bilheteria me perguntou da onde eu era e quando eu respondi “ Brasil, Rio de Janeiro” o rosto dele se iluminou de uma forma  incrível. Resultado: apesar da fila de 50 pessoas atrás de mim ele começou a me contar sem pressa e num mix de francês-inglês-portunhol que havia visitado Rio com sua esposa, que adorava bossa nova e estava muito feliz que eu estava visitando Paris.  Se eu não disesse “monsieur, acho que o pessoal aí atrás na fila vai me matar!” ele continuaria conversando! Dali fui guardar minha mochila no guarda-volumes e o rapaz que atendia me olhou com um sorriso maroto e abriu o celular, fez questão de me mostrar as fotos deles no Cristo Redentor. Como não adorar?!

O Louvre é maravilhoso, território inconquistável em apenas 1 dia. Muitos dos que lêem este blog já estiveram lá, e eu apenas estaria falando mais do mesmo se me pusesse a descrever toda sua magnitude. De lá, um passeio pelo Jardin de Tuileries, ai meu deus alguém me beliscaaaa!
Finalmente cheguei à margem do Sena à tardinha e só tinha vontade de continuar andando...deixar-me levar. Segui sentido a Notre Dame e pelo caminho vi que saíam passeios em barco de Île de la Cité...adivinhem...


Minha rotina era sair cedo do hostel, andar o dia todo e voltar tipo 21h, daí ou trazia vinho e queijo comprados em algum mercadinho para compartilhar com o pessoal que estivesse na área dos computadores (uma boa e saborosa dica para economizar, afinal ali os queijos e vinhos nacionais, são nacionais da França né) ou saía pra jantar algo por perto. Aliás, o que são aquelas vitrines de queijosssssss, presuntos, chocolates, e as das confeitariassssss?!!!
Foi muito legal perceber que as aulas de francês que tive no ginásio deixaram um legado em mim rsrs...quase sempre esquecia meu pequeno guia idiomático na hora de sair à noite mas quando alguém puxava conversa pude me comunicar numa boa. 

Já viram que tudo falado em francês parece mais chique?! Padaria. Boulangerie. Feijão preto. Ahicot noir. Fino demais né?
Só caminhar um dia inteiro na chuva tirou todo o glamour desta pessoa. Apesar de ter optado por fazer alguns trechos em metrô  e ir visitando museus ao logo do percurso para disfrutar e também me abrigar (Centre Georges Pompidou, Institute du Monde Arabe), ao final da outra tarde eu parecia um pinto molhado. Fui mesmo assim percorrer o lindooo Boulevard Saint German , e após uma parada no Musée d’Orsay, o clima parecia haver melhorado, as nuvens se dissipavam e eu estava a poucos quarteirões da Torre Eiffel. Era 14 de fevereiro, Dia dos Namorados lá...eu havia me separado há poucos meses, após um relacionamento marcante  que terminou num momento bem difícil da minha vida, mas minha saúde estava recuperada e ali estava euzinha numa viagem maravilhosa que me havia dado de presente. Era um ótimo momento para recuperar o brilho!


Subi a torre no horário estratégico que sempre busco para ver as cidades do alto, tanto de dia como à noite já iluminadas. A lua que nasceu no céu, agora límpido, poderia até parecer que era para os casais que lotavam a fila mas eu sei que ela estava ali só pra me acompanhar.  : )
A visão daquela cidade, Luz enfim ao cair da noite, me fez esquecer até a certa vertigem que dá subir no elevador por entre as estruturas de ferro e entrou para o top 5 da lista de momentos para jamais esquecer. Merci Paris!
Na manhã seguinte fui percorrer Montmartre, bairro boêmio desde os tempos em que Erik Satie se fez amigo de Debussy no antigo cabaret-bar Au Lapin Agile, que ainda existe. A subida ao Sacre Coeur é imperdível e encontrei um caminho mais ameno do que os muitos degraus do acesso mais conhecido. Na Place Tertre uma feirinha de Arte dá o tom do bairro, que possui ainda resquicios dos antigos vinhedos locais. Ali perto, o bairro que segue é onde está situado o famoso Moulin Rouge, que hoje em dia é um show bem turistico.




Já a Avenue Champs Elysées  - olha aí o francês sendo chique de novo, pois afinal é Avenida dos Campos Elíseos mesmo, né gente – é onde se revela toda a grandeza da metrópole. Um eixo monumental entre a Place de la Concorde e o Arco do Triunfo, por onde passaram desfiles históricos.
Eu  c h o q u e i  com a lista imensa de todas as batalhas ganhas por  Napoleão no Arco do Triunfo, uma coisa é ler nos livros outra é...já sabem. Dali, a algumas estações de metrô fica La Défense, distrito modernoso e um dos maiores centro financeiros da Europa, mas sinceramente eu queria voltar rapidamente pra minha cidade-do-filme-do-Woody-Allen.


Passear é bem mais agradável sob o sol e com tempo fresco. E imagina quando você vai caminhando pelo Quartier Latin, daí quebra pra Sorbonne e vai parar no Jardin du Luxembourg, daí vê todos aqueles parienses e visitantes no parque lanchando ou almoçando, sorrindo e sentados na grama?! É ou não é uma inspiração pra fazer o mesmo?! Ah , é simmm. E lá fui eu, comer meu petit-dejéuneur no parque.
Por mais que você andasse o dia inteiro, sempre havia mais lugares por visitar...Saint Chapelle, Maison de Balzac, etcetc. Nos 9 dias que passei lá sabia que outras atrações ficariam para uma próxima viagem pois ainda tinha que reservar 2 dias para ir até a Holanda visitar uma amiga querida, e foi ótimo. Tanta atividade diurna se completava com as noites no hostel...como fui a Amsterdam e voltei, na realidade fiquei em 2 hostels em Paris: o primeiro chamado Calaincourt em Montmartre, bacaninha, normal...e o segundo ao lado da Gare du Nord, chamado Smart Place, muito muito bem localizado e com um astral ótimo. Naqueles dias a galera foi se conhecendo, se cumprimentando e tal, enfim curtimos nossas nights ali mesmo comprando cervejas num quiosque próximo, conversando sobre o país natal de cada um...e havia brasileiros, argentinos, ingleses, alemães, ucranianos, etc. Terminamos com uma mesa de mais de 15 pessoas cantando “Garota de Ipanema” e “Bohemian Rapshody” em uníssono. Lembram que acabei perdendo o voo de volta e tendo que trocar?...Pois é, mas valeu a pena!